Tecnologia no cotidiano
No primeiro post sobre a China, falei principalmente sobre as pessoas que encontrei durante a viagem e sobre como elas me pareceram muito mais próximas e acolhedoras do que a distância cultural, a barreira da língua e até certo senso comum poderiam sugerir à primeira vista.
Terminei aquele relato em Shanghai, descrevendo os arranha-céus iluminados de Pudong vistos a partir do Bund. É provavelmente uma das imagens mais conhecidas da China moderna: prédios enormes, luzes coloridas e uma paisagem que parece ter sido desenhada de propósito para representar o futuro.
Mas a modernidade chinesa não estava apenas naquela paisagem.
Ela aparecia em coisas muito mais cotidianas: na maneira de viajar, de pagar uma compra, de entrar numa estação, de recarregar um carro e até de fabricar os produtos que usamos. Para mim, como entusiasta de tecnologia desde sempre, essa foi uma das partes mais interessantes da viagem.

Viajar sem passagem
Na China se viaja muito de trem. Assim como na Europa, esse costuma ser o meio mais prático, porque geralmente nos leva a regiões mais centrais das cidades, reduzindo o tempo de deslocamento — sem contar as burocracias envolvidas no embarque aéreo. Fiz de trem os trajetos de ida e volta entre Shanghai e Changzhou. Em Shanghai fica a sede da empresa, enquanto em Changzhou está localizada a fábrica.
As estações são enormes, organizadas e possuem controles de segurança semelhantes aos dos aeroportos. Antes de entrar, passageiros e bagagens passam pelo raio-X — algo que acontece inclusive nas estações de metrô — e o acesso às plataformas é controlado.
Comprei as passagens pelo aplicativo Trip.com, mas uma coisa me chamou a atenção: não existia propriamente uma passagem para apresentar.
O meu passaporte era a passagem.
Na hora do embarque, eu me dirigia à porta indicada, colocava o passaporte na máquina e o sistema autorizava minha entrada. Sem papel, sem código impresso e, na maior parte das vezes, sem qualquer interação humana.
Pode parecer apenas um detalhe, mas é o tipo de detalhe que revela um sistema inteiro funcionando por trás. A compra feita pelo aplicativo já estava associada ao meu documento, e todas as etapas seguintes reconheciam aquela informação.



E então havia os próprios trens.
Viajar em alta velocidade, com conforto e pontualidade, entre cidades separadas por centenas de quilômetros ajuda a compreender por que o sistema ferroviário tem um papel tão importante no país. Não era apenas uma atração tecnológica para impressionar visitantes. Era parte da rotina de milhões de pessoas.
Lá estava eu, chegando a quase 300 km/h sem realmente sentir a velocidade e pensando em como aquilo se repetia por um país de proporções continentais como a China. Literalmente milhões de pessoas sendo transportadas a todo momento por uma malha logística gigantesca.


E mesmo nas cidades. O metrô de Shanghai, com mais de 830km de extensão – mais do que o dobro do que Londres ou Nova york – é um espetáculo à parte, bem com o de Beijing (Pequim). Felizmente há nomes das estações em inglês para facilitar um pouco a vida do estrangeiro que se aventura por ali… mas os apps ajudam muito também para se achar, eu não conseguiria sem a ajuda do AMAPS (o equivalente do Google Maps deles).




Um país sem notas e moedas — e quase sem cartões
Outra coisa que causa certo choque em quem chega à China é a ausência de dinheiro físico.
Na verdade, não era apenas o dinheiro que praticamente não aparecia. Os cartões também pareciam ter um papel muito menor do que estamos acostumados a ver no Brasil e em outros países. Quase tudo era feito pelo celular, por meio de aplicativos.
Durante cerca de duas semanas, lembro de ter visto dinheiro físico apenas duas vezes.
Uma delas foi numa loja de doces, quando vi um homem abrir a carteira e retirar algumas notas. A cena foi tão incomum durante a viagem que acabou chamando minha atenção.
A outra aconteceu em um templo onde havia a possibilidade de fazer uma doação com moedas. Mas até ali existia uma solução digital: uma máquina permitia comprá-las usando o celular.
Ou seja, para participar de um ritual tradicional utilizando moedas físicas, primeiro era necessário adquiri-las digitalmente.
Usei meu aplicativo chinês de pagamento para pegar algumas como souvenir, obviamente.
Talvez poucas cenas resumam tão bem a convivência entre tradição e tecnologia que encontrei por lá.
E os carros elétricos?
Uma coisa que me impressionou foi a quantidade de carros elétricos que vi nas ruas da China. Havia marcas que eu já conhecia e muitas outras das quais nunca tinha ouvido falar — depois descobri que existem mais de uma centena de fabricantes por lá.
Nos primeiros dias, fiquei tentando identificar os modelos elétricos observando os escapamentos: com escapamento, provavelmente um carro a combustão ou híbrido; sem escapamento, elétrico.
Até que, durante uma caminhada, um engenheiro mais experiente da empresa comentou que os carros elétricos tinham placas verdes, enquanto os demais usavam placas azuis.
É… depois ficou óbvio. Mas confesso que me senti um pouco estúpido por ter passado vários dias contabilizando escapamentos.
Foi numa dessas caminhadas que ele me mostrou uma unidade da NIO, uma fabricante chinesa de veículos elétricos que utiliza um sistema bastante interessante de troca de baterias. Em vez de esperar o carro carregar, o motorista pode parar em uma estação automatizada e substituir a bateria descarregada por outra já carregada.



O modelo funciona como uma espécie de serviço por assinatura. Além de reduzir o tempo de espera, a empresa acompanha a condição das baterias e faz a manutenção necessária. Em teoria, você está sempre rodando com uma bateria em boas condições, sem precisar se preocupar individualmente com o envelhecimento dela.
Achei uma solução bastante prática.
No meio dessa caminhada, ele me fez outra pergunta:
— Você reparou que não há carros estacionados nas ruas?
Eu ainda não tinha prestado atenção, mas era verdade. Havia muitas bicicletas e motocicletas — principalmente elétricas, que são extremamente comuns por lá. Carros parados junto às calçadas, porém, não havia nenhum.
Então perguntei:
— Onde estão os carros?
A resposta estava embaixo dos nossos pés.
Ele me levou até um dos prédios e mostrou que os edifícios daquela região possuíam vários andares subterrâneos de estacionamento. Seis, sete, às vezes oito subsolos.
Até aí, tudo bem.
O que realmente me chamou a atenção foi perceber que todas as vagas tinham um ponto de recarga para veículos elétricos.
Para quem olha de fora, pode parecer apenas uma garagem com muitos carregadores. Mas, para quem conhece um pouco de engenharia elétrica e distribuição de energia, aquilo representa muito mais.
Não basta instalar um equipamento na parede e ligar alguns cabos. É necessário garantir que exista potência disponível para alimentar simultaneamente centenas ou até milhares de veículos, dependendo da escala do empreendimento. Isso envolve redes de distribuição, transformadores, sistemas de controle, investimentos elevados e uma infraestrutura planejada muito antes de os carros chegarem àquelas vagas.

E tudo fica ainda mais impressionante quando penso em comparar aquela realidade com o que temos no Brasil.
A infraestrutura necessária para fazer aquilo funcionar não surgiu de uma hora para outra. Em algum momento, anos antes, o governo chinês decidiu que o país deveria avançar na transição para uma frota predominantemente elétrica. Foram definidos objetivos, prazos, investimentos e ações necessárias — e o plano começou a ser executado.
Obviamente, algo assim depende da capacidade de manter estratégias de longo prazo. E, mais uma vez, foi inevitável pensar na realidade brasileira nesse sentido…
Muitas vezes discutimos novas tecnologias olhando apenas para o produto final. Vemos o carro elétrico, mas não necessariamente a rede de energia, os pontos de recarga, a política industrial, os fabricantes de baterias e todos os investimentos necessários para que ele possa ser usado em grande escala.
Na China, pelo menos naquela região de Shanghai, essa infraestrutura já não parecia uma promessa para o futuro.
Ela simplesmente fazia parte dos prédios, das garagens e da rotina das pessoas.
A fábrica chinesa
Talvez um dos lugares em que essa combinação entre planejamento, escala e tecnologia tenha ficado mais evidente para mim tenha sido a fábrica que visitei em Changzhou.
Como engenheiro, foi uma experiência especialmente interessante, não apenas por conhecer o lugar onde os produtos eram fabricados, mas também por observar de perto o nível de automação de todo o processo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade relativamente pequena de pessoas trabalhando diretamente nas linhas de produção. A fábrica funciona em dois turnos de doze horas, algo que também causa certo impacto em quem está acostumado com uma realidade trabalhista diferente da chinesa.
Ainda assim, quem realmente comandava o ritmo da produção eram as máquinas. No início da linha, eram colocados os componentes que formariam os módulos e os demais produtos. A partir dali, eles percorriam uma sequência de equipamentos automatizados, passando por montagem, inspeções, testes, movimentação entre as etapas e, finalmente, embalagem. Praticamente tudo acontecia sem contato humano.
Era impressionante observar as máquinas trabalhando de forma sincronizada, cada uma executando uma parte específica do processo enquanto os produtos avançavam pela linha. Tudo extremamente limpe e organizado. Os poucos operadores presentes estavam muito mais envolvidos no acompanhamento e na supervisão dos equipamentos do que na montagem propriamente dita.
No começo, entravam componentes separados; no final, saíam produtos prontos, testados, embalados e colocados em caixas. Brinquei comigo mesmo que, depois de entrar naquela linha de produção, o produto só voltaria a ver a luz do sol quando a embalagem fosse aberta pelo cliente, em algum lugar do mundo.





Para alguém que sempre gostou de tecnologia, ver aquilo funcionando ao vivo foi muito diferente de assistir a um vídeo institucional ou simplesmente ler sobre automação industrial. Era possível perceber a precisão, a velocidade e, principalmente, a escala necessária para produzir milhões de unidades mantendo um processo consistente.
Ao mesmo tempo, aquela fábrica era mais um exemplo de algo que apareceu diversas vezes durante a viagem: a tecnologia chinesa não se limitava a um equipamento sofisticado ou a uma novidade isolada, mas fazia parte de sistemas completos. Os trens dependiam de uma enorme malha ferroviária; os pagamentos digitais, de aplicativos amplamente adotados; os carros elétricos, de energia, carregadores e planejamento urbano; e a produção em larga escala, de fábricas automatizadas, logística e processos cuidadosamente integrados.
Foi justamente isso que mais me impressionou: não eram apenas ideias sobre o futuro. Em muitos casos, o futuro já estava funcionando diante de mim.
Que bacana Cris! Lemos juntos eu, Arthur e Dani aqui em casa e adoramos seu relato! Obrigada por compartilhar : )
Obrigado Ju, que bom que gostaram!